História

quarta-feira, 20 de março de 2013

Pré história Minas Gerais







A NOVA FACE DA   Minas pré-histórica
Novas descobertas que emergem dos sítios arqueológicos e paleontológicos mineiros atraem para o Estado especialistas de renome internacional e descortinam histórias de um passado remoto, em que o território hoje ocupado por cidades era dominado por animais gigantescos ou por nossos mais antigos antepassados. Na Grande BH, as últimas descobertas da equipe do bioantropólogo Walter Neves, da USP, podem lançar luz sobre os primeiros habitantes da América. Em todo o território mineiro, pesquisadores viajam por mil, milhares de anos passados. Das proximidades da capital, percorrem um longo túnel do tempo até Fonseca, na Zona da Mata, onde foram encontrados fósseis de plantas e pequenos insetos, datados de cerca de 37 milhões de anos. E chegam a Peirópolis, no Triângulo Mineiro, onde surgem vestígios de dinossauros e crocodilos, que teriam vivido há mais de 70 milhões de anos, resgatados por pesquisadores, que garimpam as mais antigas riquezas das Minas Gerais.




O sítio arqueológico Lapa do Santo, zona rural de Matozinhos, na Grande BH, 12 novos sepultamentos podem confirmar o que o pesquisador e bioantropólogo Walter Neves, coordenador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da Universidade de São Paulo (LEEH/USP), antevia há exatos três anos, quando iniciou os trabalhos na região de Lagoa Santa: a trilha dos “parentes” de Luzia, considerada a primeira brasileira e o primeiro fóssil humano das Américas. Em 1975, seu crânio foi descoberto em Lapa Vermelha, entre Lagoa Santa e Pedro Leopoldo, a 36 quilômetros da capital. Datações revelaram a idade do achado: entre 11 mil e 11,5 mil anos.

“Ela não está sozinha. Estou em busca do seu grupo”, afirmou Neves, ao ESTADO DE MINAS, em 2002, quando disse que quem quisesse estudar os fósseis dos primeiros habitantes da América teria que “comer na mão” de Minas Gerais. Segundo ele, embora existam evidências da presença humana há 11,5 mil anos, os abrigos só começaram a ser habitados por volta de 9,5 mil anos atrás. “Acreditamos que, de 11,5 mil a 9,5 mil anos atrás, havia apenas pequenos grupos perambulando pela região, mas que não habitavam o Carste de Lagoa Santa. A arqueologia é uma ciência lenta e a maior parte do material que retiramos dos sítios arqueológicos e paleontológicos não foi processada. Precisaremos de mais alguns anos para testar melhor nossas hipóteses sobre quem eram e como viveram esses primeiros humanos”, diz.

“Os sepultamentos e as evidências arqueológicas na Lapa do Santo indicam uma ocupação bastante densa, e abrem a chance de traçarmos novas hipóteses sobre a região”, explica o professor e arqueólogo Renato Kipnis, que ao lado de Neves, é um dos coordenadores do projeto “Origens e Microevolução do Homem na América”, desenvolvido pela USP em Minas.

Distante geograficamente de Lagoa Santa, e também nos milhares de anos de idade de cada achado, o Triângulo Mineiro revela novas facetas dos dinossauros que vagavam pelo Estado há cerca de 70 milhões de anos. “Há 15 dias, descobrimos fósseis de costelas que chegam a quase um metro de comprimento, indicando que o dinossauro tinha enormes feixes musculares no pescoço, o que nos leva a crer que pertençam a um carnívoro, de grande porte”, diz o paleontólogo e diretor do Centro de Pesquisas Llewelyn Ivor Price, Luiz Carlos Borges Ribeiro. Para o professor da Universidade Federal de Minas Gerais e diretor do Museu de Ciências Naturais da PUC Minas Cástor Cartelle, as descobertas são fantásticas, mas os locais, bem como outras áreas de Minas Gerais, como Peruaçu, Montalvânia e Itacarambi, no Norte do Estado; Pains e Arcos, no Centro-Oeste; e Fonseca, na Zona da Mata, que guardam fósseis paleontológicos (relativos ao estudo de fósseis de animais e vegetais pré-históricos) e vestígios arqueológicos (relativos à pesquisa da ocupação humana em períodos distintos da história), devem ser preservados com uma política pública mais integrada e firme.

 

“Não há plano de preservação. O Sumidouro (em Lagoa Santa) está sendo depredado. Denuncio isso desde 1990 e ninguém faz nada. Temos ali vestígios de pinturas nas rochas e das primeiras ocupações humanas, mas o local está cheio de pichações e a ocupação desordenada avança. Tudo ilegal, em monumento de valor científico e histórico inigualável”, critica.

Tesouro exposto à depredação

Segundo o geomorfólogo Luis Piló, conselheiro da Área de Proteção Ambiental (APA) Carste de Lagoa Santa, os sítios paleontológicos e arqueológicos brasileiros são protegidos por lei, mas não há gestão que lhes dê integridade. “Precisamos de articulação dos poderes federal, estadual, municipal e da comunidade”, diz. Na semana passada, a Prefeitura de Matozinhos promoveu o I Fórum da APA Carste, que levantou questões sobre como conciliar desenvolvimento econômico, ocupação humana e o patrimônio natural pré-histórico.

Cartelle conta que os momentos que marcaram a busca por vestígios da pré-história mineira remontam à época em que o dinamarquês Peter Lund fez seus primeiros achados, ainda no século XIX; a meados do século passado, quando o grupo da Academia Mineira de Ciências (fazendo referência a Harold Walter, Josaphat Penna, Arnaldo Cathoud e Anibal Mattos) escavou e levantou pinturas rupestres em Minas; e à década de 70, quando a expedição franco-brasileira capitaneada pela arqueóloga Annette Laming-Emperaire encontrou o crânio mais tarde batizado “Luzia”.



  • O dinamarquês Peter Lund (1801-1880) descobriu na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, vestígios de presença humana de mais de 10 mil anos. Quase dois séculos depois dos achados do pai da arqueologia brasileira, novas descobertas são feitas em terras mineiras. Desta vez, a área escavada fica mais a oeste, a quase 200 quilômetros de Belo Horizonte. Cerâmicas, adornos e pontas de flechas de até 11 mil anos compõem o acervo do recém-criado Museu Arqueológico do Carste do Alto São Francisco (MAC), na cidade de Pains, centro-oeste do estado.

    A região do Carste do Alto São Francisco é formada por oito municípios e tem cerca de 230 sítios arqueológicos. A grande formação calcária do local, chamada carste, ajudou a conservar quase intactas as peças deixadas ali por povos antigos. De acordo com Gilmar Henriques, idealizador e diretor do MAC, os objetos encontrados ao longo de mais de 10 anos de pesquisa estavam em cavernas, em abrigos formados por rochedos e até mesmo a céu aberto.

    Entre as 200 peças do museu está um vaso de 40 centímetros de diâmetro, em forma de cálice. “Devia ser uma oferenda, porque foi encontrado junto a um grande sepultamento. Ainda não fizemos a datação, mas acredito que tenha de 500 a dois mil anos”, afirma o diretor do MAC. Há também uma série de adornos feitos em osso. Entre eles, colares com pingentes de conchas coletadas nos rios da região, onde antigamente havia mariscos. Uma coleção de 70 pontas de flechas com idades de oito a 11 mil anos completa o acervo.

    O material encontrado pertencia a dois povos. O mais antigo deles era formado por caçadores-coletores. Eles viveram entre oito e 11 mil anos atrás e foram descobertos pela equipe de Henriques. Já os habitantes mais recentes eram ceramistas e viveram de 400 a dois mil anos atrás. “Acreditamos que os ceramistas falavam uma língua do tronco Macro-Jê. Há cerâmicas similares no leste de Minas Gerais, onde estão os índios krénak e macaxalís, que falam línguas pertencentes ao tronco”, diz o coordenador do MAC.

    A origem dos povos de língua Macro-Jê ainda é hipotética. Segundo Henriques, há arqueólogos que não acreditam na associação baseada no estilo das cerâmicas. Apesar de a polêmica quanto ao tronco linguístico não diminuir o valor das descobertas, não é todo mundo que se preocupa com o patrimônio arqueológico local. “Encontramos uma caverna completamente destruída pela mineração clandestina. Poderia ter peças lá, já que quase todas as cavernas foram ocupadas por esses povos”, lamenta Henriques. A equipe do museu tem muito trabalho pela frente. Além de mostrar a importância dos achados para a população, ainda falta registrar cerca de 30 sítios no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)






 

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