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quinta-feira, 4 de abril de 2013
Os primeiros viajantes no novo mundo
Novo Mundo viajantes do século XV/XVI
Documento
1:
“Dei
muitas outras coisas de pouco valor que lhes causaram grande prazer”
(11/10/1492). “Tudo o que têm, dão em troca de qualquer bagatela que se lhes
ofereça, tanto que aceitam na troca até mesmo pedaços de tigela e taças de
vidro quebradas” (13/10/1492). “Alguns tinham pedaços de ouro no nariz, que de
bom grado trocavam por (...) [coisas] que valem tão pouco que não valem nada”
(22/11/1492).
(Cristóvão
Colombo, “Diário”).
Documento
2:
“Até
pedaços de barris quebrados aceitavam, dando tudo o que tinham, como bestas
idiotas”.
(Cristóvão
Colombo, “Carta a Santangel”, fevereiro/março de 1493).
Documento
3:
“Alguns
índios que o Almirante [Colombo] tinha trazido de Isabela entraram nas cabanas
(que pertenciam aos índios locais) e serviram-se de tudo o que era de seu
agrado; os proprietários não deram o menor sinal de aborrecimento, como se tudo
o que possuíssem fosse propriedade comum. Os indígenas, achando que tínhamos o
mesmo costume, no início pegaram dos cristãos tudo o que era de seu agrado; mas
notaram seu erro rapidamente.”
(Fernando
Colombo, “Histoire” ou “Vida do Almirante Dom Cristóvão Colombo”, publicado em
1571)
Documento
4:
“Como
na viagem que fiz a Cibao [atual República Dominicana], ocorreu que algum índio roubou, se fosse descoberto que
alguns deles roubam, castigai-os cortando-lhes o nariz e as orelhas, pois são
partes do corpo que não se pode esconder”.
(Cristóvão
Colombo, “Instruções a Mosen Pedro Margarite”, 09/04/1494).
Documento
5:
“Cortez
ordena que cada um dos [sessenta] caciques faça vir seu herdeiro. A ordem é
cumprida. Todos os caciques são então queimados numa imensa fogueira e seus
herdeiros assistem à execução. Cortez chama-os em seguida e lhes pergunta se
sabem como foi dada a sentença contra seus pais assassinos, depois, tomando um
ar severo, acrescenta que espera que o exemplo baste e que eles não sejam mais
suspeitos de desobediência.”
(Pierre
Martyr Anghiera, “De Orbe Novo”, publicado em 1511).
Documento
6:
“Assim
que os espanhóis souberam das crenças ingênuas dos insulares em relação a suas
almas que, após a expiação das faltas, devem passar das montanhas geladas do
norte para as regiões meridionais, tudo fizeram para persuadi-los a abandonarem
por iniciativa própria o solo natal e se deixarem levar às ilhas meridionais de
Cuba e Hispaniola [Haiti]. Conseguiram convencê-los de que eles
mesmos estavam chegando do país onde encontrariam seus pais e filhos mortos,
todos os parentes e amigos, e desfrutariam de todas as delícias nos braços
daqueles que tinham amado. Como os sacerdotes já tinham incutido neles essas
falsas crenças, e os espanhóis confirmavam-nas, deixaram a pátria nessa vã
esperança. Assim que compreenderam que tinham abusado deles, já que não
encontravam nem os parentes nem pessoa alguma que desejavam e eram, ao
contrário, forçados a suportar fadigas e a executar trabalhos duros aos quais
não estavam habituados, ficaram desesperados. Ou se suicidavam, ou então
resolviam morrer de fome e faleciam de cansaço, recusando qualquer argumento, e
até mesmo a violência, para se alimentarem. (...) Assim pereceram os
desafortunados lucayos.”
(Pierre
M. Anghiera, “De Orbe Novo”).
Documento
7:
“Esta
é nossa principal intenção: prevenir o clero da confusão que pode existir entre
as nossas festas e as deles. Os índios, simulando a celebração das festas de
nosso Deus e dos santos, inserem e celebram as de seus ídolos quando caem no
mesmo dia. E introduzem seus antigos ritos no nosso cerimonial. (...) Durante
esses dias de festa, ouvia cantos louvando a Deus e aos santos que eram
misturados com suas metáforas e coisas antigas que só o demônio compreende,
pois foi ele quem lhas ensinou.”
(Frei
Diego Durán, “Historia de las Indias de Nueva España e Islas de la Tierra Firme”,
escrito entre 1576-1581).
Um
bom modo de iniciar o trabalho com esses documentos é perguntando aos alunos o
que todos eles têm em
comum. Essa é a informação básica para o desenvolvimento da
atividade: são textos produzidos por europeus dos séculos XV e XVI, portanto do
início da conquista e colonização, sobre os habitantes do lugar que os europeus
denominaram “Novo Mundo” e, a partir de 1507, de “América”, em homenagem ao
navegador e mercador florentino Américo Vespúcio (1454-1512), o primeiro a
anunciar que as terras então descobertas eram parte de um novo continente.
Um
segundo passo é inquirir dos alunos o que levou Cristóvão Colombo a comparar os
indígenas a “bestas idiotas” (doc. 2) e se eles concordam com essa avaliação. À
possível resposta de que foi o fato dos indígenas trocarem bagatelas, coisas de
nenhum valor, por ouro, o professor deve problematizar: coisas de nenhum valor
para quem? Quem é o verdadeiro idiota nesta história? Mostrar que foi a
incompreensão de Colombo, sua ignorância em relação aos valores e cultura dos
indígenas, do outro, do diferente, que o levou a chamar-lhes de “bestas
idiotas”. Como bem diz Todorov: “Colombo não compreende que os valores são
convenções (...) e que o ouro não é mais precioso do que o vidro ‘em si’, mas
somente no sistema europeu de troca. (...) temos a impressão de que é ele
[Colombo] o idiota: um sistema de troca diferente significa, para ele, a
ausência de sistema, e daí conclui pelo caráter bestial dos índios.” (Tzvetan
Todorov, A conquista da
América. A questão do outro. Trad. Beatriz Perrone Moisés. São
Paulo: Martins Fontes, 1993, p. 37. Todos os documentos desta atividade foram
tirados do livro de Todorov).
A
partir da referência ao “sistema europeu de troca” o professor pode estabelecer
seu elo com o tópico 2.
Um
possível terceiro passo é pedir para os alunos identificarem a frase do filho
mais novo de Colombo, Fernando, (doc. 3) em que ele nos dá uma pista para
compreendermos que seu pai estava errado ao chamar os indígenas de “bestas
idiotas”. A frase: “Os indígenas, achando que tínhamos o mesmo costume, no
início pegaram dos cristãos tudo o que era de seu agrado, mas notaram seu erro
rapidamente.” Aqui o professor deve explorar o fato de que Fernando percebe que
os indígenas têm costumes diferentes, que a noção que eles possuem de
propriedade privada é diversa da dos europeus. Mas, sintomático, Fernando
identifica o diferente com o erro. Sua visão etnocêntrica o impede de conferir
validade aos valores de outros povos, de outras culturas. Uma possível questão
para o desenvolvimento deste ponto é pedir para os alunos, relacionando os
documentos 3 e 4, justificarem a afirmativa: “O projeto de dominação do Novo
Mundo pelos europeus significou forçar os indígenas a assimilarem os valores da
cultura européia. Na base desse projeto estava a intolerância em relação ao
diferente.”
Os
documentos 5 e 6 nos informam de diferentes meios de dominação utilizados pelos
espanhóis no Novo Mundo. Peça para os alunos: a) identificarem esses meios
diferentes; b) relacionarem o meio utilizado no documento 5 com o documento 4;
c) apontarem as diferenças e as coincidências na atitude dos europeus em
relação à cultura dos indígenas comparando os documentos 3, 6 e 7 com os
documentos 1 e 2.
O
professor deve enfatizar que não foi apenas através da violência física
explícita – o suposto “roubo” e a rebelião promovida pelos caciques contra o
domínio espanhol são punidos exemplarmente, isto é, visíveis aos olhos de todos
(docs. 4 e 5) – que os europeus impuseram sua dominação. À medida em que foram
tomando conhecimento dos valores, das tradições, de elementos da cultura
indígena se utilizaram astutamente desses elementos para que os indígenas
atendessem a seus interesses – no caso do doc. 6, servirem como mão-de-obra.
Enquanto nos documentos 1 e 2 o que salta aos olhos é a ignorância do europeu
em relação à cultura indígena, os documentos 3, 6 e 7 revelam conhecimento do
europeu de elementos dessa cultura. Mas a intolerância em relação ao diferente
é a mesma: o “bestas idiotas” (doc. 2) equipara-se ao “erro” (doc. 3), às
“crenças ingênuas”, às “falsas crenças” (doc. 6), às coisas do “demônio” (doc.
7)
Através
da leitura dos documentos 5, 6 e 7 peça aos alunos para identificarem
diferentes meios que os indígenas utilizaram para resistir à dominação. O
professor deve ressaltar que não foi apenas através da rebelião armada que os
indígenas resistiram à dominação (doc. 5). Alguns preferiram deixar de viver –
na esperança, segundo suas crenças, de uma vida prazerosa após a morte – a
serem escravos dos espanhóis (doc. 6). Outros, mesmo servindo aos europeus, se
utilizaram da cultura que lhes era imposta para introduzir e preservar
elementos de sua própria cultura, mantendo assim traços de sua identidade e
resistindo à total submissão à religião do europeu. Aqui o professor pode
relacionar esse ponto com o tópico 3, com as formas de resistência dos
africanos à escravidão: quilombos, rebeliões, banzo e introdução de elementos
da cultura africana nas manifestações culturais do branco europeu.
Particularmente nos municípios onde existem festas como moçambique, congada
etc., o professor deve explorar essa última forma, bem como relacioná-la com as
atividades dos “escravos de ganho”, que se configuram ao mesmo tempo como
resistência e acomodação ao sistema dominante.
Esta
atividade pode ser utilizada pelo professor para trabalhar com os alunos o
conceito de “aculturação”. Mostrar que nunca uma cultura consegue apagar uma
outra que pretende dominar. Sempre quando culturas distintas entram em contato
entre elas ocorre uma interação ou ação recíproca. Seria interessante o
professor desenvolver com os alunos uma pesquisa de identificação nas
manifestações culturais e no cotidiano de sua cidade de traços das culturas
africana, indígena e européia. A começar pelos nomes das ruas e bairros.
Glossário:
Isabela: nome dado por Colombo à
quarta ilha que encontrou, em homenagem à rainha de Espanha, Isabel.
Lucayos: povo que habitava as
atuais Ilhas Bahamas.
Visão
etnocêntrica: visão que considera sua própria raça ou povo como o centro da cultura.
Marcada pelo hábito de julgar povos estrangeiros pelos padrões e práticas de
sua própria cultura ou grupo étnico. Tende a menosprezar sociedades ou povos
cujos costumes são diferentes dos da sua própria sociedade ou povo.
Banzo: estado de nostalgia
profunda, mortal, dos negros africanos escravizados e levados para terras
distantes.
domingo, 24 de março de 2013
Estados Nacionais Modernos
As monarquias nacionais centralizaram o poder político na figura de um rei.
No decorrer da Idade Média, a figura política do rei era bem distante
daquela que usualmente costumamos imaginar. O poder local dos senhores
feudais não se submetia a um conjunto de leis impostas pela autoridade
real. Quando muito, um rei poderia ter influência política sobre os
nobres que recebiam parte das terras de suas propriedades. No entanto, o
reaquecimento das atividades comerciais, na Baixa idade Média,
transformou a importância política dos reis.
A autoridade monárquica se estendeu por todo um território definido por limites, traços culturais e linguísticos que perfilavam a formação de um Estado Nacional. Para tanto, foi preciso superar os obstáculos impostos pelo particularismo e universalismo político que marcaram toda a Idade Média. O universalismo manifestava-se na ampla autoridade da Igreja, constituindo a posse sobre grandes extensões de terra e a imposição de leis e tributos próprios. Já o particularismo desenvolveu-se nos costumes políticos locais enraizados nos feudos e nas cidades comerciais.
Os comerciantes burgueses surgiram enquanto classe social interessada na formação de um regime político centralizado. As leis de caráter local, instituídas em cada um dos feudos, encareciam as atividades comerciais por meio da cobrança de impostos e pedágios que inflacionavam os custos de uma viagem comercial. Além disso, a falta de uma moeda padrão instituía uma enorme dificuldade no cálculo dos lucros e na cotação dos preços das mercadorias.
Além disso, a crise das relações servis causou um outro tipo de situação favorável à formação de um governo centralizado. Ameaçados por constantes revoltas – principalmente na Baixa Idade Média – e a queda da produção agrícola, os senhores feudais recorriam à autoridade real com o intuito de formar exércitos suficientemente preparados para conter as revoltas camponesas. Dessa maneira, a partir do século XI, observamos uma gradual elevação das atribuições políticas do rei.
Para convergir maiores poderes em mãos, o Estado monárquico buscou o controle sobre questões de ordem fiscal, jurídica e militar. Em outros termos, o rei deveria ter autoridade e legitimidade suficientes para criar leis, formar exércitos e decretar impostos. Com esses três mecanismos de ação, as monarquias foram se estabelecendo por meio de ações conjuntas que tinham o apoio tanto da burguesia comerciante, quanto da nobreza feudal.
Com o apoio dos comerciantes, os reis criaram exércitos mercenários que tinham caráter essencialmente temporário. Ao longo dos anos, a ajuda financeira dos comerciantes tratou de formar as milícias urbanas e as primeiras infantarias. Tal medida enfraqueceu a atuação dos cavaleiros que limitavam sua ação militar aos interesses de seu suserano. A formação de exércitos foi um passo importante para que os limites territoriais fossem fixados e para que fosse possível a imposição de uma autoridade de ordem nacional.
A partir de então, o rei acumulava poderes para instituir tributos que sustentariam o Estado e, ao mesmo tempo, regulamentaria os impostos a serem cobrados em seu território. Concomitantemente, as moedas ganhariam um padrão de valor, peso e medida capaz de calcular antecipadamente os ganhos obtidos com o comércio e a cobrança de impostos. A fixação de tais mudanças personalizou a supremacia política dos Estados europeus na figura individual de um rei.
Além de contar com o patrocínio da classe burguesa, a formação das monarquias absolutistas também contou com apoio de ordem intelectual e filosófica. Os pensadores políticos da renascença criaram importantes obras que refletiam sobre o papel a ser desempenhado pelo rei. No campo religioso, a aprovação das autoridades religiosas se mostrava importante para que os antigos servos agora se transformassem em súditos à autoridade de um rei.
Por Rainer SousaA autoridade monárquica se estendeu por todo um território definido por limites, traços culturais e linguísticos que perfilavam a formação de um Estado Nacional. Para tanto, foi preciso superar os obstáculos impostos pelo particularismo e universalismo político que marcaram toda a Idade Média. O universalismo manifestava-se na ampla autoridade da Igreja, constituindo a posse sobre grandes extensões de terra e a imposição de leis e tributos próprios. Já o particularismo desenvolveu-se nos costumes políticos locais enraizados nos feudos e nas cidades comerciais.
Os comerciantes burgueses surgiram enquanto classe social interessada na formação de um regime político centralizado. As leis de caráter local, instituídas em cada um dos feudos, encareciam as atividades comerciais por meio da cobrança de impostos e pedágios que inflacionavam os custos de uma viagem comercial. Além disso, a falta de uma moeda padrão instituía uma enorme dificuldade no cálculo dos lucros e na cotação dos preços das mercadorias.
Além disso, a crise das relações servis causou um outro tipo de situação favorável à formação de um governo centralizado. Ameaçados por constantes revoltas – principalmente na Baixa Idade Média – e a queda da produção agrícola, os senhores feudais recorriam à autoridade real com o intuito de formar exércitos suficientemente preparados para conter as revoltas camponesas. Dessa maneira, a partir do século XI, observamos uma gradual elevação das atribuições políticas do rei.
Para convergir maiores poderes em mãos, o Estado monárquico buscou o controle sobre questões de ordem fiscal, jurídica e militar. Em outros termos, o rei deveria ter autoridade e legitimidade suficientes para criar leis, formar exércitos e decretar impostos. Com esses três mecanismos de ação, as monarquias foram se estabelecendo por meio de ações conjuntas que tinham o apoio tanto da burguesia comerciante, quanto da nobreza feudal.
Com o apoio dos comerciantes, os reis criaram exércitos mercenários que tinham caráter essencialmente temporário. Ao longo dos anos, a ajuda financeira dos comerciantes tratou de formar as milícias urbanas e as primeiras infantarias. Tal medida enfraqueceu a atuação dos cavaleiros que limitavam sua ação militar aos interesses de seu suserano. A formação de exércitos foi um passo importante para que os limites territoriais fossem fixados e para que fosse possível a imposição de uma autoridade de ordem nacional.
A partir de então, o rei acumulava poderes para instituir tributos que sustentariam o Estado e, ao mesmo tempo, regulamentaria os impostos a serem cobrados em seu território. Concomitantemente, as moedas ganhariam um padrão de valor, peso e medida capaz de calcular antecipadamente os ganhos obtidos com o comércio e a cobrança de impostos. A fixação de tais mudanças personalizou a supremacia política dos Estados europeus na figura individual de um rei.
Além de contar com o patrocínio da classe burguesa, a formação das monarquias absolutistas também contou com apoio de ordem intelectual e filosófica. Os pensadores políticos da renascença criaram importantes obras que refletiam sobre o papel a ser desempenhado pelo rei. No campo religioso, a aprovação das autoridades religiosas se mostrava importante para que os antigos servos agora se transformassem em súditos à autoridade de um rei.
Graduado em História
Guerra dos Cem Anos
Guerra dos Cem Anos: uma disputa entre ingleses e franceses por territórios e poder econômico.
Do ponto de vista histórico, podemos ver que a Guerra dos Cem Anos foi um evento que marcou o processo de formação das monarquias nacionais inglesa e francesa. Não por acaso, vemos que esse conflito girou em torno dos territórios e impostos que eram tão necessários ao fortalecimento de qualquer monarquia daquela época. Sendo assim, vemos que tal evento manifesta significativamente a centralização política que se desenvolveu nos fins da Idade Média.
Iniciada em 1337, a Guerra dos Cem Anos foi deflagrada quando o trono francês esteve carente de um herdeiro direto. Aproveitando da situação, o rei britânico Eduardo III, neto do monarca francês Felipe, O Belo (1285 – 1314), reivindicou o direito de unificar as coroas inglesa e francesa. Dessa forma, a Inglaterra incrementaria seus domínios e colocaria um conjunto de prósperas cidades comerciais sob o seu domínio político, principalmente da região de Flandres.
Nessa época, os comerciantes de Flandres apoiaram a ação britânica por terem laços comerciais francamente estabelecidos com a Inglaterra. Por conta desse apoio, os ingleses venceram as primeiras batalhas e conseguiram o controle de alguns territórios do Norte da França. Até aquele instante, observando a superioridade numérica e bélica dos ingleses, era possível apostar na queda da monarquia francesa. Contudo, a decorrência da Peste Negra impôs uma pausa aos dois lados da guerra.
As batalhas só foram retomadas em 1356, quando a Inglaterra conquistou novas regiões e contou com apoio de alguns nobres franceses. No ano de 1360, a França se viu obrigada a assinar o Tratado de Brétigny. Pelo documento, a Inglaterra oficializava o seu domínio sobre parte da França e recuperava alguns territórios inicialmente tomados pelos franceses.
A ruína causada pela guerra provocou grandes problemas aos camponeses franceses. A falta de recursos, os pesados tributos e as fracas colheitas motivaram as chamadas jacqueries. Nesse instante, apesar dos episódios de violência contra a nobreza, os exércitos da França reorganizaram suas forças militares. Realizando a utilização de exércitos mercenários, o rei Carlos V conseguiu reaver uma parcela dos territórios perdidos para a Inglaterra.
Nas últimas décadas do século XIV, os conflitos tiveram uma pausa em virtude de uma série de revoltas internas que tomaram conta da Inglaterra. Apesar da falta de guerra, uma paz definitiva não havia sido protocolada entre os ingleses e franceses. No ano de 1415, o rei britânico Henrique V retomou a guerra promovendo a recuperação da porção norte da França. Mais do que isso, através do Tratado de Troyes, ele garantiu para si o direito de suceder a linhagem da monarquia francesa.
Em 1422, a morte de Carlos VI da França e de Henrique V da Inglaterra fizeram com que o trono francês ficasse sob a regência da irmã de Carlos VI, então casada com o rei Henrique V da Inglaterra. Nesse meio tempo, os camponeses da França se mostraram extremamente insatisfeitos com a dominação estrangeira promovida pela Inglaterra. Foi nesse contexto de mobilização popular que a emblemática figura de Joana D’Arc apareceu.
Alegando ter sido designada por Deus para dar fim ao controle inglês, a camponesa Joana D'Arc mobilizou as tropas e populações locais. Aproveitando do momento, o rei Carlos VII mobilizou tropas e passou a engrossar e liderar os exércitos que mais uma vez se digladiaram contra a Inglaterra. Nesse instante, temendo o fortalecimento de uma liderança popular, os nobres franceses arquitetam a entrega de Joana D'Arc para os britânicos.
No ano de 1430, Joana D'Arc foi morta na fogueira sob a acusação de bruxaria. Mesmo com a entrega da heroína, os franceses conseguiram varrer a presença britânica na porção norte do país. Em 1453, um tratado de paz que encerrava a Guerra dos Cem Anos foi assinado.
Por um lado, a guerra foi importante para se firmar o ideal de nação entre os franceses. Por outro, abriu caminho para que novas disputas alterassem a situação da monarquia inglesa.
Por Rainer Sousa
Mestre em História
Oliver Crowmell
A chegada dos Stuart ao trono significou uma grande transformação no cenário político da Inglaterra. Abandonando as medidas liberais dos Tudor, o recém-entronizado rei Jaime I era favorável ao poder monárquico absoluto. Além disso, tinha apreço pelos praticantes do catolicismo, ao enxergar nesses uma classe religiosa favorável ao inquestionável poder real.
Pretendendo implantar tais orientações políticas, Jaime I defendia que a dominação britânica sob a Irlanda deveria ser feita sob moldes feudais. Além disso, buscou exercer o monopólio sob a produção têxtil inglesa. Com isso, visava enriquecer os cofres reais e configurar uma forte influência política independente da aprovação do Parlamento inglês. No campo religioso, enfatizou as diretrizes católicas do anglicanismo e privilegiou os súditos católicos.
Morrendo em 1625, Jaime I deixou o trono para seu filho Carlos I. Durante seu reinado, foi obrigado a convocar o Parlamento para a aprovação de gastos com conflitos e guerras. Hostilizado pela instituição, foi pressionado a assinar a Petição de Direitos. Nesse documento, o rei se comprometia a prestar contas ao Parlamento e colocar as questões financeiras e militares sob o domínio da instituição. Indiferente a tais exigências, o rei preferiu dissolver o Parlamento britânico.
Anos mais tarde, Carlos I resolveu restabelecer um antigo tributo: o Ship Money. Esse imposto, que antes era cobrado em algumas zonas portuárias, deveria ser cobrado em todo o território inglês. Tal lei desfavorecia a burguesia, que seria obrigada a limitar seus lucros frente ao tributo real. Forçado por uma guerra a convocar o Parlamento em 1640, o rei mais uma vez levou à tona o conflito existente entre a sua autoridade e o interesse parlamentar.
Nesse momento, o Parlamento radicalizou sua postura exigindo total controle sobre as questões religiosas e tributárias. Além disso, reivindicou a constante convocação das autoridades parlamentares. Em resposta, Carlos I ameaçou mais uma vez extinguir as autoridades parlamentares. Inconformada com a imposição monárquica, os líderes do Parlamento convocaram a formação de uma milícia armada que garantisse a existência do parlamento britânico. Era o início da Revolução Puritana.
Protegendo-se da reação popular, Carlos I dirigiu-se à cidade de Oxford com intuito de organizar um exército capaz de combater as tropas do parlamento. Dessa forma, estabeleceu-se uma guerra civil onde as tropas reais enfrentavam as frentes populares armadas pelo parlamento. Esses populares, de maioria puritana (calvinistas), formaram um grande exército que via na luta um meio de superar suas dificuldades econômicas. Nomeados como integrantes do Exército de Novo Tipo, esses populares começaram a se inserir no processo revolucionário inglês.
Liderados por Oliver Cromwell, os combatentes revolucionários dividiram-se em duas facções políticas: os diggers e os levellers. Os primeiros defendiam uma reforma agrária espontânea que garantisse o acesso dos camponeses à terra. Já o levellers buscavam a total igualdade jurídica entre os cidadãos e a liberdade de culto religioso. Dessa maneira, as camadas populares inglesas se fizeram presentes no debate político da época.
As vitórias dos exércitos de Cromwell nas batalhas de Marston Moor e Naseby figuraram um importante passo para a conquistas dos ideais democráticos defendidos pelos diggers e levellers. No momento em que os mais moderados arquitetavam a desmobilização do exército de Novo Tipo, as tropas foram convocadas a lutarem mais uma vez contra as tropas da realeza. Nesse confronto, o rei Carlos I foi capturado e decapitado, em janeiro de 1649.
Exercendo grande hegemonia política, os exércitos decretaram o fim da monarquia inglesa e a proclamação de um governo republicano. Nesse novo governo, os moderados foram excluídos do parlamento e Oliver Cromwell foi aclamado como presidente do novo Conselho de Estado ou Commonwealth. Acumulando poderes políticos em mãos, Cromwell não atendeu às exigências do exército que o colocou no poder. Dessa maneira, implementou uma ditadura que excluiu os populares das instituições políticas.
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